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Pacientes com Alzheimer tem três vezes mais risco de morte por Covid-19, aponta estudo

Pacientes com Alzheimer tem três vezes mais risco de morte por Covid-19, aponta estudo Fonte/Divulgação.

Acima dos 80 anos, possibilidade de infecção é 6 vezes maior. Estudo foi realizado por pesquisadores do Instituto Butantan, UFRJ e USP. Doença afeta cerca de 1,2 milhão de brasileiros atualmente, segundo Ministério da Saúde.

Acima dos 80 anos, possibilidade de infecção é 6 vezes maior. Estudo foi realizado por pesquisadores do Instituto Butantan, UFRJ e USP. Doença afeta cerca de 1,2 milhão de brasileiros atualmente, segundo Ministério da Saúde.
Rede Globo
Pacientes com Alzheimer têm três vezes mais risco de morte por Covid-19 que pacientes que não têm a doença. Quando a comparação é feita na faixa etária acima dos 80 anos de idade, o risco de infecção pelo coronavírus é seis vezes maior em pacientes com Alzheimer do que para pacientes sem a doença.
É o que aponta um estudo realizado por pesquisadores do Instituto Butantan, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP). O artigo foi publicado nesta quarta-feira (21) na revista "Alzheimer’s & Dementia: The Journal of the Alzheimer's Association", com o apoio da Fapesp, Faperj e CNPq.
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De forma geral, as doenças neurodegenarativas aumentam, independentemente da faixa etária, os riscos de os pacientes evoluírem para um quadro grave da COVID-19 e reduzem para um terço as chances de sobrevida do paciente, mesmo quando ele recebe recursos e tratamentos iguais aos demais pacientes hospitalizados pela Covid-19.
No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que a doença afeta cerca de 30% da população com mais de 85 anos. As estimativas são de que o Alzheimer atinja 1,2 milhão de brasileiros atualmente, e a previsão é de que em 2050 esse número aumente para 4 a 5 milhões de doentes.
Entretanto, como as bases de dados, aqui no Brasil, ainda não estão suficientemente sistematizadas até aqui, os pesquisadores analisaram a princípio estatísticas do Reino Unido, porque, segundo eles é o único do mundo que tem ficha médica completa dos pacientes desde 2006. Além de todos os exames arquivados, também há informações sobre genomas sequenciados.
Neste estudo, foram investigados o número de diagnósticos positivos, hospitalizações e mortes por COVID-19 em uma coorte de 12.863 pacientes acima de 65 anos com dados de testes positivos ou negativos para o novo coronavírus, cadastrados entre março e agosto de 2020 no UK Biobank, um banco de dados clínicos que contém cerca de 500 mil pacientes acompanhados desde 2006 pelo sistema público de saúde. Desse total, 1.167 foram diagnosticados com COVID-19. Para considerar a idade como um fator de risco, eles foram estratificados em três faixas etárias: de 66 a 74, 75 a 79 e 80 anos ou mais.
“Nossos resultados mostraram, primeiro, que pacientes com Alzheimer e demência têm muito mais chances de serem infectados do que pacientes sem demência. Além disso, uma vez infectados, têm chance bem maior de precisarem de hospitalização pela Covid, ou seja, de terem quadros graves da doença ou de virem a óbito do que pacientes sem demência”, explica Sergio Ferreira, Professor Titular dos Institutos de Biofísica e Bioquímica da UFRJ, um dos coordenadores do projeto.
Segundo ele, isso indica que pacientes com demência (especialmente, Alzheimer) deveriam ser considerados de grupo de risco prioritário, por exemplo, para vacinação, além de requerem cuidados ainda maiores para evitar o risco de infecção.
Alguns estudos vêm mostrando que o SARS-CoV-2 é capaz de invadir o sistema nervoso central por meio da mucosa olfatória e que a presença do vírus nessa região resulta em uma resposta imune e inflamatória local. Por isso, uma das possíveis explicações para os desfechos observados nos pacientes com demência é que estas condições inflamatórias crônicas ou respostas imunológicas defeituosas, causadas pelo envelhecimento do sistema imunológico (imunossenescência), podem aumentar a vulnerabilidade e reduzir a capacidade desses pacientes de apresentarem respostas eficazes à infecção. Outra hipótese é a alteração da permeabilidade da barreira hematoencefálica, causada pela doença de Alzheimer, que pode possibilitar o aumento da infecção no sistema nervoso central.
“Há algum fator, que nós ainda não identificamos, mas os resultados do nosso trabalho já mostram que é necessário dar uma atenção especial a esses pacientes ao serem internados, inclusive porque os que têm Alzheimer apresentam um risco muito maior de morte”, destaca Sergio Verjovski, professor titular do Instituto de Química da USP, também coordenador da pesquisa.
Segundo ele, as análises estatísticas indicaram que todas as causas de demência foram fatores de risco para gravidade e morte de pacientes hospitalizados. Embora o Alzheimer não tenha aumentado especificamente o risco de hospitalização na comparação com comorbidades crônicas, aumentou o risco de morte dos pacientes internados.
Pesquisas recentes já haviam comprovado que a demência é um fator de risco para COVID-19, ao lado de outras comorbidades, como doenças cardiovasculares e respiratórias, hipertensão, diabetes, obesidade e câncer.
No entanto, segundo os pesquisadores, esta é a primeira vez que os dados indicam que pacientes com doenças neurodegenerativas que causam a demência – como Alzheimer e Parkinson – não só são efetivamente mais infectados, como também têm mais risco de morte. Um dos motivos é própria a idade: pacientes com demência, em média, são mais velhos e grande parte vive sob cuidados de outras pessoas em casas ou lares de idosos, o que aumenta o risco de infecção e transmissão do vírus.
Próximos passos
Depois de identificar os genes responsáveis pelos quadros mais graves da Covid-19 em pacientes com demência, especialmente com Alzheimer, os cientistas pretendem observar os genomas dos pacientes que morreram e dos que ficaram hospitalizados, para buscar os possíveis genes relacionados com estes quadros graves.
Nesta primeira etapa, ainda não foram consideradas as possíveis consequências das novas variantes do vírus, porque este dado não estava disponível na base britânica. Porém, segundo o grupo de cientista, é possível que essa informação seja considerada nos próximos meses conforme as análises avancem com pacientes brasileiros, nos quais se possa testar especificamente alguns dos genes correlacionados com os quadros graves que venham a ser identificados.
“Estamos olhando para os dados já disponíveis de sequenciamento do genoma de todos os indivíduos do banco UK. Estamos buscando os genes que possam estar alterados em todos os pacientes com Alzheimer que morreram por Covid ou ficaram graves no hospital, para encontrar os possíveis responsáveis pela piora neste quadro”, ressalta Verjovski.
Pesquisador há mais de 20 anos na área, Ferreira conta que acompanha de perto o sofrimento que a doença causa nos pacientes e familiares, justamente porque geralmente precisam de cuidados intensivos, personalizados, muitas vezes até 24 horas por dia.
“Se essa informação for utilizada corretamente pelas autoridades de saúde, ela poderá resultar em que esses pacientes sejam incluídos em listas prioritárias de imunização e, como eles nem sempre podem ir ao posto de saúde, isso implica em levar o atendimento à vacinação domiciliar à esses pacientes. Então, nós esperamos que isso sirva de alerta, que possa ser traduzido em ações concretas para proteger essa população”, finaliza Ferreira.
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